Análise
de influências barrocas na canção de Lulu Santos e uma introdução à poesia de Sor Juana Inés de La Cruz
Minha
ideia era apresentar, na verdade introduzir o barroco, aos alunos de uma turma
de 1º ano do Ensino Médio. Mas queria fazê-lo de uma forma diferente. Queria
convidá-los a conhecer essa tendência literária resgatando
algo de sua vivência algo no mínimo mais contemporâneo. Foi
aí que me surgiu a ideia de levar para o ambiente a sala de aula uma canção de
Lulu Santos. “Certas Coisas”.
O que
sempre me chamou a atenção nela era a forte presença de antíteses, que
compunham um quadro paradoxal típico do barroco: “som”/ “silêncio” ,” luz”/
“escuridão”, “dia “/ “noite”, “não” / “ sim “ são figuras marcantes na
primeira estrofe .
O mais
interessante é observar que essa tônica segue presente nas estrofes
subsequentes, apresentando um eu-lírico que fala em silêncio:
“Silenciosamente “ eu te falo com paixão” ou então no belo
verso : “Eu te amo “ calado “ Como quem houve uma sinfonia” De
silêncio e de luz “. Nesse quadro de figuras dissonantes,a imagem
da contradição tipicamente barroca se sobressai , trazendo à tona a
percepção do amor como um sentimento regido pelas
contradições. Mas talvez como um sentimento que se expresse apenas pela
contradição.
E foi
despertando nos alunos, por meio de perguntas e reflexões coletivas, um olhar
sobre as contradições do amor sentido pelo eu – lírico da música
que trabalha a análise da canção . Meu objetivo
era que eles tivessem muito claro a noção da antítese e do parodoxo
para poder dar um passo adiante no estudo do barroco: Analisar o poema “O
que ingrato, Me deixa busco amante” de Sor Juana Inés de La Cruz .
Os
versos da poeta mexicana mostram, por meio da mesma temática amorosa, as
antíteses e os paradoxos . Essa análise coletiva permitiu aos alunos estudar um
poema autenticamente barroca de uma forma diferente. Eles tinham
uma referência de seu tempo _ a canção de Lulu Santos _ para estabelecer as
relações. Isso fez com que o contato com um texto difícil, de séculos atrás e
com o qual não tinham intimidade se tornasse mais palatável, interessante
e instigante.
De
quebra conheceram o barroco por uma poeta fascinante e ainda pouco valorizada
no contexto literário das escolas brasileiras. Nem foi preciso que eu
explicasse ou introduzisse os conceitos nesta segunda análise. Os próprios
alunos foram desbravando os versos marcantes de Sor Juana Inês : “O que
ingrato me deixa busco apaixonada / o que apaixonada me segue deixo ingrata /
adoro fiel quem meu amor busco constante”
Conteúdo
analisado
Certas Coisas
(Lulu Santos e
Nelson Motta)
Não
existiria som se não houvesse o silêncio
Não haveria luz se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noite, não e sim
Cada voz que canta o amor não diz tudo o que quer dizer
Tudo que cala fala mais alto ao coração
Silenciosamente
Eu te falo com paixão
Eu te amo calado
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncio e de luz
Nós somos medo e desejo
Somos feitos de silêncio e som
Tem certas coisas que eu não sei dizer
Não haveria luz se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noite, não e sim
Cada voz que canta o amor não diz tudo o que quer dizer
Tudo que cala fala mais alto ao coração
Silenciosamente
Eu te falo com paixão
Eu te amo calado
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncio e de luz
Nós somos medo e desejo
Somos feitos de silêncio e som
Tem certas coisas que eu não sei dizer
O QUE INGRATO ME DEIXA BUSCO AMANTE
Sor Juana Inés de La Cruz / Traduzido por Carolina Potti
Sor Juana Inés de La Cruz / Traduzido por Carolina Potti
O
que ingrato me deixa busco apaixonada;
o que apaixonado me segue deixo ingrata;
adoro fiel quem meu amor maltrata;
firo quem meu amor busca constante.
O que trato de amor, acho-o diamante,
e sou diamante ao que de amor me trata;
triunfante quero ver o que me mata,
e mato o que quer ver-me triunfante.
Se a este acedo, padece o meu desejo;
se rogo àquele, o pundonor enojo;
de ambos os modos infeliz me vejo.
Assim, prefiro, por menor antojo,
de quem não quero, ser cruel motejo
a, de quem não me queira, vil despojo.
o que apaixonado me segue deixo ingrata;
adoro fiel quem meu amor maltrata;
firo quem meu amor busca constante.
O que trato de amor, acho-o diamante,
e sou diamante ao que de amor me trata;
triunfante quero ver o que me mata,
e mato o que quer ver-me triunfante.
Se a este acedo, padece o meu desejo;
se rogo àquele, o pundonor enojo;
de ambos os modos infeliz me vejo.
Assim, prefiro, por menor antojo,
de quem não quero, ser cruel motejo
a, de quem não me queira, vil despojo.

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